segunda-feira, 5 de março de 2012

A figura do “outro” e a ciência econômica

Luigino Bruni



Para refletirmos sobre a relação entre economia de comunhão e a tradição das ciências econômicas, quero ressaltar a questão da “simpatia”.
O conceito de “simpatia” remonta à origem da ciência econômica. Encontramos a sympathy em Adam Smith, no coração da sua filosofia moral.
A economia nasceu em 1776, de uma costela do Adão filósofo moral.
Na concepção de Smith, a simpatia é “a capacidade de se colocar no lugar do outro”, um conceito no qual não é difícil identificar raízes cristãs.
«Por mais egoísta que o homem possa ser considerado, há, na sua natureza, alguns princípios que o levam a se interessar pela sorte dos outros, que fazem com que a felicidade dos outros seja necessária a ele». Assim começa a sua “Teoria dos sentimentos morais” (1759).
Para Smith, a simpatia é um princípio diferente tanto do egoísmo, quanto do altruísmo. Caracteriza-se por se relacionar com o que a pessoa é, e não com o que a pessoa faz. Para ele, a pessoa é uma realidade relacional.
O papel que a simpatia representa na teoria econômica de Smith é um dos maiores problemas da história do pensamento econômico, tanto que, na metade do século passado, ele foi chamado de “o problema Adam Smith”.
A solução que prevaleceu entre os economistas é extremamente simples. Na sua teoria moral, Smith falava de todas as ações humanas, por isso conferia um papel à simpatia. Na economia, a simpatia não tem uma função importante, portanto pode ser ignorada, a fim de que as atenções se concentrem no egoísmo, o verdadeiro motor do mercado.
Porém, nem todos os estudiosos estão satisfeitos com esta solução simplista.
Particularmente nos últimos anos, alguns como Nieli e Fontaine, demonstraram que a coerência do pensamento de Smith deve ser buscada num outro nível, mais interessante.
Um aspecto que fugiu aos intérpretes de Smith é a categoria de intimacy, da intimidade ou distância social. Para Smith a simpatia diminui (e o egoísmo aumenta) com o crescimento da distância social entre as pessoas. A simpatia atinge o grau máximo na família, e atinge o grau mínimo entre desconhecidos.
O mais interessante é que entre os exemplos que Smith usa para demonstrar onde é importante a intimidade, encontramos a fábrica, o ambiente de trabalho, os habitantes de uma mesma cidade. Ele se refere sempre a “espaços econômicos”.
Se esta interpretação de Smith é verdadeira – como de fato é –, então, não podemos “ler” o seu pensamento como se houvesse uma separação entre o campo econômico (reino do egoísmo) e o não econômico (reino da simpatia).
O que determina a predominância de um ou de outro fator é a distância social entre as pessoas envolvidas no intercâmbio, seja econômico ou não.
Se o leiteiro, o padeiro e o açougueiro – personagens geralmente citados como exemplos onde a simpatia não funciona – são pessoas com quem eu convivo no meu bairro, são pessoas conhecidas, então a simpatia é um fator determinante. Mas, se compro o leite e a carne num grande supermercado, torna-se plausível explicar as minhas escolhas com base no interesse pessoal.
O outro tem o seu valor também nas escolhas econômicas: é o que nos ensina uma nova leitura do pensamento de Smith.
Esta dimensão pessoal do comportamento econômico perdeu-se pelo caminho e – com raras exceções – (Edgeworth e Marshall) – hoje em dia o economista estuda um homem econômico capaz de egoísmo e também de altruísmo, mas totalmente incapaz de simpatia. A identidade do outro não tem nenhuma função na economia dominante.
Na economia de comunhão, pelo contrário, a atividade econômica é um momento da vida de uma comunidade, constituída de relações pessoais. O mercado não é um lugar anônimo, mas um encontro entre pessoas. Além do mais, dentro da empresa e no relacionamento da empresa com o mundo ao seu redor, a simpatia, o “fazer-se um”, tem um papel decisivo. Mais ainda: é uma das características do nosso projeto.
A cidade da economia atualmente é povoada por muitos “anônimos”, por “outros”; falta, porém o “tu”, a identidade do outro. A Economia de Comunhão contribuí para trazê-lo de volta, para dentro dos muros da cidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário