domingo, 15 de abril de 2012

ESPIRITUALIDADE DE COMUNHÃO

Se hoje, no limiar do terceiro milênio, nós, cristãos, repassarmos a história dos nossos dois mil anos e, sobretudo a do segundo milênio, não podemos evitar mais uma vez a tristeza de constatar que muitas vezes ela foi uma secessão de incompreensões, de conflitos, de lutas que laceraram em muitos pontos a túnica sem costura de Cristo, que é a sua Igreja.
Por culpa de quem? Certamente das circunstâncias históricas, culturais, políticas, geográficas, sociais. Mas também do desaparecimento, entre os cristãos, de um elemento unificante, típico deles: o amor.
Então, na tentativa de remediar hoje tão grande mal e de recolher novas forças para recomeçar, é necessário, também como Igreja, fixar o nosso olhar exatamente lá onde se encontra o princípio da nossa fé comum: em Deus Amor.
De fato, Deus não nos ama como cristãos apenas singularmente, mas também como Igreja. E ama a Igreja por tudo o que ela fez na história de acordo com o desígnio que Deus tinha sobre ela. Mas também – e é este o lado magnífico da misericórdia de Deus – ele ama a Igreja embora ela não tenha correspondido ao seu amor, uma vez que os cristãos se dividiram; contanto que agora eles busquem a plena comunhão na divina vontade.
Foi esta consoladora convicção que, diante da pergunta: “Por que o Espírito Santo permitiu todas estas divisões?”, motivou João Paulo II – confiante naquele que extrai o bem do mal – a responder, mesmo admitindo que pode ter sido por causa dos nossos pecados: “Não poderia ser também (...) que as divisões tenham sido (...) um caminho que levou e leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por ele? Talvez de outra forma tais riquezas não pudessem ter vindo à luz...”.
Acreditar, portanto, em Deus que é Amor não somente para conosco, mas também para com a Igreja. Este é o ponto de partida.
Mas se Deus ama a Igreja, ela deve retribuir o amor de Deus como Igreja. E as várias Igrejas ou comunidades eclesiais devem amar-se reciprocamente.
Como passar dos séculos cada Igreja petrificou-se, de certo modo, em si mesma pela onda de indiferença, de incompreensão, para não dizer: de ódio recíproco. Por isso mesmo torna-se necessário, em cada uma, um suplemento de amor, ou melhor, ainda, o povo cristão deveria ser invadido por uma torrente de amor. Aquele amor que leva a colocar tudo em comum, tornando-se cada Igreja um dom para as outras, de forma que se possa prever que, na única Igreja do futuro, a verdade será uma e única, mas expressa de maneiras variadas, observadas a partir de ângulos diferentes, embelezadas por múltiplas interpretações.
No livro “Cruzando o Limiar da Esperança”, João Paulo II escreve: “É necessário que o gênero humano alcance a unidade através da pluralidade, que aprenda a reunir-se na única Igreja, mesmo no pluralismo das formas de pensar e de agir, das culturas e das civilizações”.
Essa Igreja, em plena comunhão, será uma realidade maravilhosa, fascinante como um milagre, que despertará a atenção e o interesse do mundo inteiro.
Uma espiritualidade de comunhão, porém, não contribui somente para a realização da unidade dos cristãos, mas serve também para abrir um diálogo com pessoas de outras religiões.
Se nós, cristãos, amarmos como esta espiritualidade ensina, poderemos contar com uma luz a mais para ver e descobrir nas outras religiões a presença das “sementes do Verbo”. Com efeito, as religiões não-cristãs não raro refletem um raio da Verdade que Cristo revelou. Esta descoberta poderá levar a uma maior aproximação e compreensão recíproca.
Se é verdade que quase todas as religiões possuem a “regra de ouro” que, de modos diferentes, afirma: “faça aos outros aquilo que gostaria que os outros lhe fizessem; não faça aos outros aquilo que não gostaria que os outros lhe fizessem”, então esta poderá ser um meio para estabelecermos com aquelas um relacionamento de amor mútuo.
Porém, é, sobretudo o mistério de Jesus crucificado e abandonado que oferecerá também neste campo grande possibilidade. De fato, intui-se que nele, “que era Deus e aniquilou a si mesmo” – como Paulo escreve na carta aos filipenses -, pode-se descortinar um caminho providencial para o diálogo, sobretudo com as religiões da Ásia, muitas vezes centralizada no desapego de todas as coisas e na anulação de si.
E isso porque, se também nós nos anularmos, por amor a Jesus crucificado e abandonado poderemos compreendê-los e entrar na vida deles, pois é verdade o que afirma um teólogo: ”Conhecer a religião do outro significa entrar na sua pele, enxergar o mundo como ele o vê, penetrar no sentido que tem para ele ser hinduísta, muçulmano, judeu, budistas”.
E ainda: a espiritualidade da unidade abre diálogo com pessoas que não possuem um referencial religioso, as quais se encontram no mundo inteiro. Também neste caso Jesus na cruz é, com o seu grito, a divina resposta aos abismos de sofrimento e de provação escavados no coração dos homens pelos questionamentos profundos de tão grande parte da cultura moderna. É graças a ele e com ele que poderemos nos aproximar positivamente de todos esses nossos irmãos e irmãs.
E por fim, a unidade entre o homem e a natureza. O cosmo aguarda a revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19). Pelo que foi dito, viver uma espiritualidade ecumênica significa dar aos homens e às mulheres uma possibilidade maior de viver e revelar-se como filhos e filhas de Deus. Dessa forma, enquanto todos nós nos empenharmos para proteger a natureza, ela mesma, misteriosamente, responderá ao nosso amor, como sabem fazer todos os seres animados e sustentados por Deus.
Uma espiritualidade de comunhão, portanto. E a unidade é a nota que a sintetiza completamente. Colocando-a em prática, veremos o mundo caminhar de volta, como quando se retrocede um filme.
Quantas divisões dramáticas, quantas desagregação, quantas crises permeiam o nosso planeta, ainda hoje mergulhado na indiferença, na secularização, no materialismo!
Com essa nova vida será possível retroceder, se bem que progredindo: a humanidade encontrará a unidade para a qual Deus a criou e as Igrejas viverão em plena comunhão, de forma como ele pensou e fundou a sua Igreja.
Portanto, vale a pena experimentar.

Chiara Lubich

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