quarta-feira, 18 de abril de 2012

“TENDE CORAGEM: EU VENCI O MUNDO!”


Não é preciso ir muito longe para encontrar remédio e solução para as fumaças que contaminam a atmosfera do mundo. O Evangelho é a saúde eterna e quem, em nome dele e por ele, até morre, desaparecendo, mesmo em nossos dias, talvez ignorado por todos, vive.

Esse, porque amou e perdoou, defendeu e não cedeu, é um vitorioso e, como tal, é acolhido nos páramos eternos.

Mas o Evangelho não há de ser apenas a regra da nossa morte; deve ser o pão cotidiano da nossa vida.

Passando pelas ruas de cidades tradicionalmente católicas, muitas vezes vem a tentação de duvidar da fé das pessoas. Afinal, nós sabemos quantos, também na nossa Itália católica(1), perderam o senso de Deus. E isto se vê, se sente, se sabe; e o cinema e o teatro, a televisão e a moda, a pintura e a música e os jornais o atestam.

Às vezes, certas situações nos deixam estarrecidos e uma sensação de desânimo nos assalta, vendo adultos e inocentes imersos num mundo tão pouco cristão... É quando a fé – se ainda vive em nosso coração – nos sugere uma palavra de Jesus, daquelas eternas. E, atônitos, ficamos convictos e iluminados. Certos, sobretudo, de que aquela sua palavra tem a atualidade de sempre. E nasce no coração a esperança de que, nutrindo-nos dela, não só o nosso espírito encontrará defesa ao ataque contra o mal que nos circunda, pelo bem daqueles que amamos e desejamos ver salvos.

“Tende coragem: eu venci o mundo!”(Jo 16,33).

Quando o tédio, a apatia ou a revolta ameaçam enfraquecer a nossa alma no cumprimento da vontade divina, devemos ir além. Com Jesus é possível que o homem novo viva constantemente em nós, e as nuvens de fumaça do mundo que refreiam a nossa alma se dissiparão.

Quando a antipatia e ódio nos induzirem a julgar ou detestar um irmão nosso, deixemos Cristo viver em nós e, amando, não julgando, perdoando, venceremos.

Quando nos pesam na alma situações que há anos se arrastam na família, na comunidade de trabalho – pequenas ou grandes desconfianças, ciúmes, invejas, tiranias – devemos desempenhar a função de pacificadores e mediadores entre as partes adversárias e recompor a unidade entre os irmãos em nome de Jesus, que trouxe esta idéia à terra, como a verdade, pedra preciosa do seu Evangelho.

Se nos cerca um mundo, como o político ou social, calejado por paixões, por carreirismo, esvaziado de ideais, de justiças e de esperanças, não nos deixemos sufocar. Devemos confiar e não abandonar sobretudo o nosso posto e o nosso empenho: com Quem venceu a morte, pode-se esperar contra toda esperança.


                                                                              Chiara Lubich



(1) A Itália é um país tradicionalmente de grande maioria católica

terça-feira, 17 de abril de 2012

ABORTO DE FETO ANENCEFÁLICO

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB lamenta profundamente a decisão do Supremo Tribunal Federal que descriminalizou o aborto de feto com anencefalia ao julgar favorável a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54. Com esta decisão, a Suprema Corte parece não ter levado em conta a prerrogativa do Congresso Nacional cuja responsabilidade última é legislar.
Os princípios da “inviolabilidade do direito à vida”, da “dignidade da pessoa humana” e da promoção do bem de todos, sem qualquer forma de discriminação (cf. art. 5°, caput; 1°, III e 3°, IV, Constituição Federal), referem-se tanto à mulher quanto aos fetos anencefálicos. Quando a vida não é respeitada, todos os outros direitos são menosprezados, e rompem-se as relações mais profundas.
Legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais, é descartar um ser humano frágil e indefeso. A ética que proíbe a eliminação de um ser humano inocente, não aceita exceções. Os fetos anencefálicos, como todos os seres inocentes e frágeis, não podem ser descartados e nem ter seus direitos fundamentais vilipendiados!
A gestação de uma criança com anencefalia é um drama para a família, especialmente para a mãe. Considerar que o aborto é a melhor opção para a mulher, além de negar o direito inviolável do nascituro, ignora as consequências psicológicas negativas para a mãe.   Estado e a sociedade devem oferecer à gestante amparo e proteção
Ao defender o direito à vida dos anencefálicos, a Igreja se fundamenta numa visão antropológica do ser humano, baseando-se em argumentos teológicos éticos, científicos e jurídicos. Exclui-se, portanto, qualquer argumentação que afirme tratar-se de ingerência da religião no Estado laico. A participação efetiva na defesa e na promoção da dignidade e liberdade humanas deve ser legitimamente assegurada também à Igreja.
A Páscoa de Jesus que comemora a vitória da vida sobre a morte, nos inspira a reafirmar com convicção que a vida humana é sagrada e sua dignidade inviolável.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, nos ajude em nossa missão de fazer ecoar a Palavra de Deus: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

domingo, 15 de abril de 2012

ESPIRITUALIDADE DE COMUNHÃO

Se hoje, no limiar do terceiro milênio, nós, cristãos, repassarmos a história dos nossos dois mil anos e, sobretudo a do segundo milênio, não podemos evitar mais uma vez a tristeza de constatar que muitas vezes ela foi uma secessão de incompreensões, de conflitos, de lutas que laceraram em muitos pontos a túnica sem costura de Cristo, que é a sua Igreja.
Por culpa de quem? Certamente das circunstâncias históricas, culturais, políticas, geográficas, sociais. Mas também do desaparecimento, entre os cristãos, de um elemento unificante, típico deles: o amor.
Então, na tentativa de remediar hoje tão grande mal e de recolher novas forças para recomeçar, é necessário, também como Igreja, fixar o nosso olhar exatamente lá onde se encontra o princípio da nossa fé comum: em Deus Amor.
De fato, Deus não nos ama como cristãos apenas singularmente, mas também como Igreja. E ama a Igreja por tudo o que ela fez na história de acordo com o desígnio que Deus tinha sobre ela. Mas também – e é este o lado magnífico da misericórdia de Deus – ele ama a Igreja embora ela não tenha correspondido ao seu amor, uma vez que os cristãos se dividiram; contanto que agora eles busquem a plena comunhão na divina vontade.
Foi esta consoladora convicção que, diante da pergunta: “Por que o Espírito Santo permitiu todas estas divisões?”, motivou João Paulo II – confiante naquele que extrai o bem do mal – a responder, mesmo admitindo que pode ter sido por causa dos nossos pecados: “Não poderia ser também (...) que as divisões tenham sido (...) um caminho que levou e leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por ele? Talvez de outra forma tais riquezas não pudessem ter vindo à luz...”.
Acreditar, portanto, em Deus que é Amor não somente para conosco, mas também para com a Igreja. Este é o ponto de partida.
Mas se Deus ama a Igreja, ela deve retribuir o amor de Deus como Igreja. E as várias Igrejas ou comunidades eclesiais devem amar-se reciprocamente.
Como passar dos séculos cada Igreja petrificou-se, de certo modo, em si mesma pela onda de indiferença, de incompreensão, para não dizer: de ódio recíproco. Por isso mesmo torna-se necessário, em cada uma, um suplemento de amor, ou melhor, ainda, o povo cristão deveria ser invadido por uma torrente de amor. Aquele amor que leva a colocar tudo em comum, tornando-se cada Igreja um dom para as outras, de forma que se possa prever que, na única Igreja do futuro, a verdade será uma e única, mas expressa de maneiras variadas, observadas a partir de ângulos diferentes, embelezadas por múltiplas interpretações.
No livro “Cruzando o Limiar da Esperança”, João Paulo II escreve: “É necessário que o gênero humano alcance a unidade através da pluralidade, que aprenda a reunir-se na única Igreja, mesmo no pluralismo das formas de pensar e de agir, das culturas e das civilizações”.
Essa Igreja, em plena comunhão, será uma realidade maravilhosa, fascinante como um milagre, que despertará a atenção e o interesse do mundo inteiro.
Uma espiritualidade de comunhão, porém, não contribui somente para a realização da unidade dos cristãos, mas serve também para abrir um diálogo com pessoas de outras religiões.
Se nós, cristãos, amarmos como esta espiritualidade ensina, poderemos contar com uma luz a mais para ver e descobrir nas outras religiões a presença das “sementes do Verbo”. Com efeito, as religiões não-cristãs não raro refletem um raio da Verdade que Cristo revelou. Esta descoberta poderá levar a uma maior aproximação e compreensão recíproca.
Se é verdade que quase todas as religiões possuem a “regra de ouro” que, de modos diferentes, afirma: “faça aos outros aquilo que gostaria que os outros lhe fizessem; não faça aos outros aquilo que não gostaria que os outros lhe fizessem”, então esta poderá ser um meio para estabelecermos com aquelas um relacionamento de amor mútuo.
Porém, é, sobretudo o mistério de Jesus crucificado e abandonado que oferecerá também neste campo grande possibilidade. De fato, intui-se que nele, “que era Deus e aniquilou a si mesmo” – como Paulo escreve na carta aos filipenses -, pode-se descortinar um caminho providencial para o diálogo, sobretudo com as religiões da Ásia, muitas vezes centralizada no desapego de todas as coisas e na anulação de si.
E isso porque, se também nós nos anularmos, por amor a Jesus crucificado e abandonado poderemos compreendê-los e entrar na vida deles, pois é verdade o que afirma um teólogo: ”Conhecer a religião do outro significa entrar na sua pele, enxergar o mundo como ele o vê, penetrar no sentido que tem para ele ser hinduísta, muçulmano, judeu, budistas”.
E ainda: a espiritualidade da unidade abre diálogo com pessoas que não possuem um referencial religioso, as quais se encontram no mundo inteiro. Também neste caso Jesus na cruz é, com o seu grito, a divina resposta aos abismos de sofrimento e de provação escavados no coração dos homens pelos questionamentos profundos de tão grande parte da cultura moderna. É graças a ele e com ele que poderemos nos aproximar positivamente de todos esses nossos irmãos e irmãs.
E por fim, a unidade entre o homem e a natureza. O cosmo aguarda a revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19). Pelo que foi dito, viver uma espiritualidade ecumênica significa dar aos homens e às mulheres uma possibilidade maior de viver e revelar-se como filhos e filhas de Deus. Dessa forma, enquanto todos nós nos empenharmos para proteger a natureza, ela mesma, misteriosamente, responderá ao nosso amor, como sabem fazer todos os seres animados e sustentados por Deus.
Uma espiritualidade de comunhão, portanto. E a unidade é a nota que a sintetiza completamente. Colocando-a em prática, veremos o mundo caminhar de volta, como quando se retrocede um filme.
Quantas divisões dramáticas, quantas desagregação, quantas crises permeiam o nosso planeta, ainda hoje mergulhado na indiferença, na secularização, no materialismo!
Com essa nova vida será possível retroceder, se bem que progredindo: a humanidade encontrará a unidade para a qual Deus a criou e as Igrejas viverão em plena comunhão, de forma como ele pensou e fundou a sua Igreja.
Portanto, vale a pena experimentar.

Chiara Lubich

quinta-feira, 5 de abril de 2012

VIA-SACRA NO COLISEU

PRESIDIDA PELO SANTO PADRE
BENTO XVI
SEXTA-FEIRA SANTA DE 2012

MEDITAÇÕES DE 
Danilo e Anna Maria Zanzucchi
Movimento dos Focolares
Iniciadores do Movimento "Famílias Novas"

Introdução
Jesus diz: «Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me». Um convite válido para todos: solteiros e casados, jovens, adultos e idosos, ricos e pobres, desta ou daquela nação. Vale também para cada família, para os seus membros individualmente ou para a pequena comunidade como tal.
Antes de entrar na sua Paixão final, Jesus, no horto das oliveiras, deixado só pelos apóstolos adormecidos, teve medo daquilo que O esperava e, dirigindo-Se ao Pai, pediu: «Se é possível, afaste-se de Mim este cálice». Acrescentando imediatamente: «No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres».
Daquele momento dramático e solene, tira-se uma lição profunda para quantos se puseram a segui-Lo. Como cada cristão, também cada família tem a sua via-sacra: doenças, mortes, apuros financeiros, pobreza, traições, comportamentos imorais dum ou doutro, desavenças com os parentes, calamidades naturais.
Mas, neste caminho doloroso, cada cristão, cada família pode levantar o olhar e fixá-lo em Jesus, Homem-Deus.
Revivamos, juntos, a experiência final de Jesus sobre a terra, acolhida pelas mãos do Pai: uma experiência dolorosa e sublime, na qual Jesus condensou o exemplo e o ensinamento mais preciosos para vivermos em plenitude a nossa vida, segundo o modelo da sua vida.

ORAÇÃO INICIAL
O Santo Padre:
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
R/. Amen.

O leitor:
Oremos.
(breve pausa de silêncio)
Jesus,
nesta hora em que recordamos a vossa morte,
queremos fixar amorosamente o nosso olhar
nos sofrimentos indescritíveis por Vós vividos.
Sofrimentos condensados, todos, no grito misterioso
que destes na cruz, antes de expirar:
«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?»
Jesus, pareceis um Deus com o ocaso à vista:
o Filho sem Pai,
o Pai privado do Filho.
Aquele vosso grito humano-divino
que trespassou o ar no Gólgota,
ainda hoje nos interroga e impressiona,
mostra-nos que algo de inaudito aconteceu.
Algo de salvífico:
da morte brotou a vida,
das trevas a luz,
da separação extrema a unidade.
A sede de nos conformarmos a Vós
leva-nos a reconhecer-Vos abandonado
onde e como quer que seja:
nas dores pessoais e colectivas,
nas misérias da vossa Igreja e nas noites da humanidade,
para enxertar, onde e como quer que seja, a vossa vida,
propagar a vossa luz, gerar a vossa unidade.
Hoje, como então,
sem o vosso abandono,
não haveria Páscoa.
R/. Amen.