quinta-feira, 24 de novembro de 2011

QUANDO SE CONHECEU A DOR

Quando se conheceu a dor em todos os seus matizes mais atrozes, nas mais variadas angústias, e se ergueram as mãos a Deus em mudas e lancinantes súplicas, em abafados gritos de ajuda; quando se bebeu o fundo do cálice e, durante dias e anos, ofereceu-se a Deus a própria cruz, incorporada à sua, que a valoriza divinamente, então Deus tem piedade de nós e nos acolhe em sua união.

E o momento em que, depois de ter experimentado o valor sem par da dor, de ter acreditado na economia da cruz e de ter visto os seus efeitos benéficos, Deus mostra, de modo mais alto e novo, algo que vale mais ainda do que a dor. E o amor aos outros, em forma de misericórdia, amor que faz abrir os braços e o coração aos infelizes, aos mendigos, aos martirizados da vida, aos pecadores arrependidos.

Amor que sabe acolher o próximo desencaminhado, seja ele amigo, ir­mão ou desconhecido, e o perdoa infinitas vezes. Amor que faz mais festa a um pecador que volta do que a mil justos, e empresta a Deus inteligência e bens para que Ele possa demonstrar ao filho pródigo a felicidade pelo seu retorno. Amor que não mede e não será medido.

É uma caridade que floresce mais abundante, mais universal, mais concreta do que aquela que a alma antes possuía. De fato, ela sente nascer dentro de si sentimentos parecidos com os de Jesus, percebe aflorar-lhe aos lábios, para todos os que encontra, as divinas palavras: «Tenho compaixão da multidão» (Mt 15,32). E, com os muitos pecadores que dela se aproximam, pois é um pouco imagem de Cristo, entabula colóquios semelhantes aos que Jesus teve um dia com Madalena, com a samaritana, com a adúltera. A misericórdia é a última expressão da caridade, aquela que a remata. E a caridade supera a dor, porque a dor só existe nesta vida, enquanto o amor perdura também na outra. Deus prefere a misericórdia ao sacrifício.

Chiara Lubich

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Comunhão e Direito em Manaus

Com o envolvimento de 10 faculdades de direito, magistrados, advogados, políticos e estudantes, por dois dias enfrentaram-se as questões jurídicas a partir da categoria da fraternidade, com reflexos no campo ambiental.

“Um instrumento para construir uma sociedade mais justa e um futuro melhor, a partir do direito”, foi com esta frase que a corregedora-geral de Justiça do Amazonas, desembargadoraMaria do Socorro Guedes Moura, definiu o II Congresso Norte e Nordeste de Direito e Fraternidade (3 e 4 de novembro), organizado por Comunhão e Direito e promovido pela Corregedoria Geral de Justiça do Estado do Amazonas.

O encontro foi aberto pelo presidente do Tribunal, desembargador João Simões, que ao dar as boas vindas aos participantes e palestrantes, disse que o Judiciário do Amazonas sentia-se “honrado em abrigar um evento dessa magnitude”. Presente entre as autoridades também o diretor da Escola Superior de Magistratura, Flávio Pascarelli, que salientou o valor da iniciativa para a formação dos jovens magistrados.

Eram mais de 300 os presentes, das mais variadas profissões no campo do direito: juízes, membros do ministério público, advogados, oficiais de justiça, membros da polícia, deputados, secretários de alguns Estados brasileiros e estudantes de dez faculdades de Direito do estado do Amazonas.

Munir Cury, magistrado e membro da Comissão de redação do Estatuto da Criança e do Adolescente, traçou os fundamentos dos trabalhos, tratando de “Direito e Sociedade na Construção da Justiça”. Por sua vez, Carlos Augusto Machado, juiz do Ministério Público de Sergipe, colocou o acento sobre a fraternidade como categoria jurídica e constitucional.

No segundo dia foram muito apreciadas as colocações feitas pela diretora do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina, Olga Boschi, sobre o valor do conhecimento da categoria jurídica da fraternidade no currículo acadêmico, e as aulas deAdalberto Carim, juiz da Vara Especializada do Meio Ambiente e de Questões Agrárias do Estado do Amazonas, sobre a “Justiça Ambiental no Século XXI”.

Uma conotação especial foi dada ao tema da fraternidade no direito no contexto sociocultural do Estado do Amazonas, onde é proeminente aquestão ecológica, com a consequente responsabilidade e necessidade de tutela do patrimônio ambiental, como expressão concreta de fraternidade, inclusive em relação às futuras gerações. Falando da sociedade como categoria jurídica no direito ambiental,Carlos Aurélio Mota, docente na Universidade Ibirapuera (São Paulo) e especialista em ética e direitos humanos, abriu novas pistas para a pesquisa acadêmica.

Segundo os organizadores, as elaborações jurídicas produzidas pelo encontro virão em benefício de todo o Brasil. De fato, estiveram presentes representantes de vários estados e o evento foi transmitido na internet, através do site da Escola Superior de Magistratura do Amazonas (ESMAM), que tem sua página no site oficial do Tribunal de Justiça do Estado (http://www.tjam.jus.br/esmam).

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ONDE O SOL JAMAIS CONHECE OCASO

Todo dia passa e aqui logo anoitece.

Senhor, aceita a minha vida, todos os momentos que ainda tenho pela frente, antes que chegue a hora.

Não sei o que é, mas uma sensação de insatisfação amargura às vezes o meu instante. Talvez porque eu devesse ser toda arrebatada por ti, ate a última raiz que me mantém presa não sei ainda a quê, mas que não está totalmente perdida em ti.

Este viver que é um viajar, este assentar-se ilusório na ordem que a vida promete por um instante e para o qual inadvertidamente se ten­de e que, tão-logo alcançado, já ameaça virar tédio, talvez seja a vida. Também Tu, até os trinta anos, embora cumprindo perfeitamente teus deveres de cada dia, olhavas mais longe, para a missão que te aguardava. E, quando saíste, foram uma corrida só aqueles três brevíssimos anos.

E Tu os passaste nas estradas reunindo discípulos, socorrendo doentes, semeando a palavra, encantando o povo. Era o movimento acelerado da Sabedoria que, crescendo em idade, edificava o Reino de Deus com celeridade crescente.

Chegaste ao patíbulo quase sem perceber. Atravessaste a passagem em, poucas horas, entregando a Deus, por nós, o corpo e a alma.

Talvez esta incapacidade de capturar o presente que escapa, e o reencontrarmo-nos sempre à noite sejam uma gota da tua vida em nós, aqui na terra.

Gratos, Jesus, pela vida. Prepara-nos para morrer e mantém-nos contigo lá onde o Sol jamais conhece ocaso.

Chiara Lubich

sábado, 12 de novembro de 2011

Discurso do Papa a voluntários católicos europeus - 11/11/2011

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira - equipe CN Notícias)



Discurso
Encontro dos Voluntários Católicos dos Países Europeus
Sala Clementina
Sexta-feira, 11 de novembro de 2011


Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos Amigos,

Sou grato pela oportunidade de cumprimentar-vos enquanto estais reunidos sob os auspícios do Pontifício Conselho Cor Unum neste Ano Europeu do Voluntariado. Deixai-me começar agradecendo ao Cardeal Robert Sarah pelas amáveis palavras que me dirigiu em vosso nome. Também gostaria de expressar minha profunda gratidão a vós, e, por extensão, aos milhões de voluntários católicos que contribuem, regular e generosamente, com a missão caritativa da Igreja em todo o mundo. No tempo presente, marcado pela crise e incerteza, vosso compromisso é uma razão de confiança, uma vez que mostra que a bondade existe e é crescente em nosso meio. A fé de todos os católicos é certamente reforçada quando eles veem o bem que está sendo feito em nome de Cristo (cf. Fl, 6).

Para os cristãos, o trabalho voluntário não é apenas uma expressão de boa vontade. É baseado em uma experiência pessoal com Cristo. Ele foi o primeiro a servir a Humanidade, ele livremente deu sua vida para o bem de todos. Esse dom não foi baseado em nossos méritos. A partir disso, aprendemos que Deus dá a nós a Si mesmo. Mais do que isso: Deus Caritas Est - Deus é amor, para partilhar uma frase da Primeira Carta de São João (4, 8) que empreguei no título de minha primeira Carta Encíclica. A experiência do amor generoso de Deus desafia-nos e liberta-nos para adotar a mesma atitude com os nossos irmãos e irmãs: "Recebestes de graça, de graça dai" (Mt 10, 8). Experimentamos isso especialmente na Eucaristia, quando o Filho de Deus, no partir do pão, reúne a dimensão vertical de Seu dom divino com a dimensão horizontal de serviço aos nossos irmãos e irmãs.

A graça de Cristo ajuda-nos a descobrir dentro de nós mesmos o desejo humano pela solidariedade e uma vocação fundamental para o amor. Sua graça aperfeiçoa, fortalece e eleva essa vocação, e capacita-nos a servir os outros sem esperar retorno, satisfação ou qualquer recompensa. Aqui vemos algo da grandeza de nossa vocação humana: servir aos outros com a generosidade e liberdade que caracterizam o próprio Deus. Nós também nos tornamos instrumentos visíveis de Seu amor em um mundo que ainda anseia profundamente por esse amor em meio à pobreza, solidão, marginalização e ignorância que vemos ao nosso redor.

Certamente, o trabalho voluntário católico não pode responder a todas essas necessidades, mas não nos desencorajemos. Também não devemos nos deixar seduzir por ideologias que querem mudar o mundo de acordo com uma visão puramente humana. O pouco que nós conseguimos fazer para aliviar as necessidades humanas pode ser visto como uma boa semente que irá crescer e produzir muito fruto; é um sinal da presença de Cristo e de amor que, como a árvore do Evangelho, cresce para dar abrigo, proteção e força para todos os que necessitam.

Esta é a natureza do testemunho que vocês, com toda a humildade e convicção, oferecem à sociedade civil. Embora seja dever do poder público reconhecer e apreciar essa contribuição sem distorcê-la, vosso papel como cristãos é tomar parte ativa na vida da sociedade, visando torná-la cada vez mais humana, cada vez mais marcada pela liberdade autêntica, justiça e solidariedade.

Nosso encontro de hoje acontece na memória litúrgica de São Martinho de Tours. Muitas vezes retratado partilhando seu manto com um pobre homem, Martinho tornou-se um modelo de caridade em toda a Europa e mesmo do mundo todo. Hoje em dia, o trabalho voluntário tornou-se um serviço de caridade reconhecido universalmente como um elemento de nossa cultura moderna. No entanto, suas origens podem ainda ser vistas na particular preocupação cristã de proteger, sem discriminação, a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Se essas raízes espirituais são negadas ou obscurecidas e os critérios de nossa colaboração tornam-se puramente utilitários, aquilo que é o mais distintivo no serviço que prestamos corre o risco de se perder, em detrimento da sociedade como um todo.

Queridos amigos, gostaria de concluir incentivando os jovens a descobrir no trabalho voluntário uma forma de crescer no amor oblativo, que dá um profundo sentido à vida. Os jovens reagem prontamente ao chamado do amor. Ajudemo-los a ouvir a Cristo, que faz Seu chamado ser sentido nos corações e atrai para junto de si. Não devemos ter medo de colocá-los diante de um desafio radical e de mudança de vida, ajudando-os a aprender que nossos corações são feitos para amar e ser amados. É no dom de si que chegamos a viver a vida em toda sua plenitude.

Com esses sentimentos, renovo a minha gratidão a todos vós e a todos aqueles a quem representais. Peço a Deus que olhe pelas vossas muitas obras de serviço e vos torne cada vez mais fecundos espiritualmente, para o bem da Igreja e de todo o mundo. A vós e a vossos colegas, de bom grado concedo a minha Bênção Apostólica.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Um novo olhar

No mês passado, a convite de uma amiga, visitei com ela a Bienal de Arte de Veneza. Comentando depois os que vimos, constatamos que boa parte da seleção das obras ali expostas tinham uma questão comum: a solidão do homem.
Outro amigo meu, psicanalista, afirma que nossa sociedade urbana contemporânea é cheia de pessoas narcisistas, incapazes de olhar o outro ou de reconhecer o outro como alguém que não é uma projeção de si mesmo. Problema com o qual depara com frequência em seu consultório.
Críticos da pós-modernidade, como Lyotard, Morin e Bauman, para citar os mais famosos, não cansam de apontar o esgarçamento do tecido social como uma das tantas crises da atualidade.
Num recente documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, num capítulo dedicado à análise de conjuntura, enumeram-se algumas características dos tempos que correm: “o laicismo militante, […] a irracionalidade da chamada cultura midiática; o amoralismo generalizado; as atitudes de desrespeito diante do povo; um projeto de nação que nem sempre considera adequadamente os anseios deste mesmo povo. Os critérios que regem as leis do mercado, do lucro e dos bens materiais regulam também as relações humanas, familiares e sociais, incluindo certas atitudes religiosas. Crescem as propostas de felicidade, realização e sucesso pessoal, em detrimento do bem comum e da solidariedade. Não raras vezes, o individualismo desconsidera as atitudes altruístas, solidárias e fraternas. Por vezes, os pobres são considerados supérfluos e descartáveis. Desta forma, ficam comprometidos o equilíbrio entre os povos e nações, a preservação da natureza, o acesso à terra para trabalho e renda, entre outros fatores. É preciso pensar na função do Estado, na redescoberta de valores éticos, para a superação da corrupção, da violência, do narcotráfico, bem como o tráfico de pessoas e armamentos. A consciência de concidadania está comprometida.”
Mas creio que cada um de nós é capaz de elaborar com competência uma lista de exemplos da crise das relações humanas – no ambiente familiar, na escola, no ambiente corporativo, na esfera política e por aí vai.
No entanto, outro olhar é possível - e fica para amanhã...

Klaus Brüschke - Editor da Revista Cidade Nova